Palha,
acaso e casa

[atlasvoice]

Eu vendia palha italiana
porque era fácil —
todo mundo me conhecia —
e difícil —
todo mundo me conhecia
e eu sempre parava pra conversar.

Escolhi morar aqui
ou foi o caminho que me escolheu.
Florianópolis, Montevidéu, Buenos Aires —
nomes grandes demais
pra um corpo que queria estrada.

Antes, o Pará.
Depois, São Luís.
Carona, barco, canoa, ônibus,
pé no chão quente do sertão.
Cinquenta e seis dias
aprendendo que quem viaja
não quer mais parar.

Quando pensei no litoral,
era tarde:
a Bienal da UNE me puxou pelo braço,
Recife abriu a porta,
e Olinda —
eu nem sabia que existia —
me prendeu sem pedir licença.

Cheguei no sábado do Galo.
A cidade gritando.
Eu quieto por dentro.
Apartamento emprestado,
oito desconhecidos,
amizades improvisadas
como colchão no chão.

Boa Vista virou casa
porque morar é diferente de visitar.
Casa é quando o corpo descansa
mesmo sem saber se fica.

Tentei outras casas.
Barulho demais.
Bagunça com sujeira.
Panela nenhuma limpa.
Eu pensava:
vou adoecer.
Eles diziam:
“amanhã a gente vê”.

Comecei a fazer palha
numa pousada chamada Hilton.
Aprendi por telefone,
doce de família emprestado,
mão tremendo diante dos ingredientes,
um cabeludo desconfiando
se alguém ia comprar aquilo dele.

Compraram.
Trinta palhas em quarenta minutos.
Duas paradas de ônibus,
cruzando a rua
como quem joga amarelinha com o destino.

Depois veio a gastronomia,
outros sabores,
outra paciência.
Eu brincava:
vim pra Olinda pra dormir.

No Amaro Branco,
a panela era coletiva.
As crianças disputavam colher
como se fosse brinquedo.

As casas se sucediam rápido,
todas no primeiro ano,
como se Olinda testasse
quanto tempo eu aguentava ficar.
Uma mulher disse às duas da manhã:
“é agora ou você não acha”.
Fui.
E achei.

Outra me avisou:
não fique dez anos.
Olinda prende.
E eu fiquei escutando,
sem prometer nada.

Um café italiano acelerou meu peito.
Quatro cervejas tentaram desacelerar o mundo.
Um poste virou ponto de encontro.
Ali, conversando,
começou um amor
que já dura quase uma década.

Minha filha nasceu no meio do bloco,
banda tocando novela,
fantasia, confusão,
vida acontecendo sem pedir ordem.

E assim sigo:
entre palha doce,
casas emprestadas,
ruas que viram abrigo,
sabendo que aqui
todo mundo se conhece —
e que, mesmo assim,
todo dia
eu continuo chegando.