Lambedor
do tempo

[atlasvoice]

Eu compro as ervas
mas quem me vendeu o começo
foi minha mãe.

Cidreira, polônia, alfavaca,
o verde simples do quintal.
Depois o mundo foi abrindo outras folhas
e eu fui aprendendo os nomes
como quem aprende parentes novos.

Aqui, o que mais sai
é remédio que se lambe:
lambedor.
Coisa do interior,
uma colherzinha
e a fé misturada no açúcar.

Hortelã graúda, mastruz, agrião,
alecrim, malva-rosa,
erva que esquenta o peito
e acalma o chiado do pulmão.

Depois vêm as que cuidam do que dói escondido:
útero, ovário,
silêncios inflamados.
Quixaba, caju roxo,
bartimão,
raiz branca que parece segredo.

Tudo fresco.
Esse veio de Gravatá.

Quando eu era menina,
pisavam folha de canela no chão
e o cheiro fazia a casa dançar.
Eucalipto também,
mas a canela era mais atrevida,
invadia tudo.

Sucupira não funciona inteira, não.
Tem que quebrar,
soltar o líquido,
botar no vinho branco,
no biotônico,
na esperança de quem já acorda doendo.

Noz-moscada, camomila,
junça —
ou nó de cachorro,
que o povo chama assim
como se carinho também curasse nervo.

Unha-de-gato destrói mioma
no começo,
porque depois, minha filha,
é Deus ou médico.

Casca de angica,
catingueira fedida,
ingá que cai sozinho no chão
— eu nunca tinha visto verde
e vi justo no dia da encomenda.

Meu avô viveu cem anos.
Podia ter vivido mais.
No interior, o tempo era bruto e doce:
caldo de cana moído na hora,
milho pesado de pedra,
dois homens pra mover.
Eu gostava.
Gostava muito.

Morei um ano em São Paulo,
zona leste,
olho sempre aberto no ônibus.
Sou curiosa:
não viajo dormindo.

Se eu tivesse a cabeça de hoje
quando era nova,
tinha estudado mais,
aprendido inglês,
conversado com turista
sem pedir socorro ao gesto.

Marco Zero
é a pergunta que mais escuto.
Com jeitinho,
eu ensino o caminho.
Ser útil é isso:
apontar o mundo
pra quem chega perdido.

Meu primeiro patrão
me viu vendendo folhas verdes
com quinze anos
e abriu um box de umbanda.
Me chamou.
Eu era nova demais
pra entender onde aquilo podia dar.

Pra ir embora daqui
é um instante.
São Paulo me espera na casa da irmã.
Mas sempre tem alguém que passa
e pergunta:
“tu tá por aqui?”
Tô.

Saio de casa antes das sete.
Ônibus, metrô, integração,
um sufoco que também ensina paciência.

Tem menino que só existe
porque alguém insistiu.
Tem família grande
porque pobre sempre inventou alegria.

Conversar é meu jeito de cuidar.
Erva cura,
mas palavra também.

Ontem no ônibus,
chamei uma senhora pro ar-condicionado.
Ela não gostava de frio.
Pedi perdão.

O calor humano, eu disse,
esquenta.
Nem sempre esquenta.

Quando ela desceu,
eu cochilei.
Porque até quem segura o mundo
precisa, às vezes,
fechar os olhos
um pouquinho.