A casa nasceu
no dia em que uma ausência
fez barulho demais
no Cais de Santa Rita.
Quando uma trans caiu do mundo
e o mundo fingiu que não viu,
uma mulher juntou tijolo com urgência
e chamou de abrigo
o que era, na verdade,
sobrevivência organizada.
Hoje a casa tem endereço
— Casa Amarela, Dois Irmãos —
mas também tem colo.
Tem regra, tem horário,
tem limite pra visita
e abraço que só pode
depois do portão.
Dentro,
se somos inimigas lá fora,
aqui somos irmãs por decreto.
Não é conto de fadas:
é convivência em volume alto,
é cabelo no ralo,
é ciúme,
é riso,
é aprender a não se matar
todos os dias.
Ela chegou aos 16,
com o corpo cansado de briga,
com o irmão virado em faca,
com a rua virando opção.
Hoje tem 24
e diz:
não quero sair daqui.
Aqui é estudo,
é quinta e sexta refeitas,
é curso de cabeleireiro,
é cacho definido fio a fio
como quem aprende
a se desenhar de novo.
Salão?
Não.
Muito gasto, muita conta.
Ela prefere ir de casa em casa,
levar as mãos,
o creme,
e o cuidado.
Aqui também tem pegadinha,
vídeo sem pedir licença,
celular brotando do nada.
Ela ri.
Ri alto.
Quase cai de rir.
Porque rir é um direito
que ninguém tira.
Ela dança,
ela brinca,
ela vira meme sem pedir desculpa.
— Se a gente não espalha energia,
vira prisioneira.
E ela não quer cela.
Quer rua sem medo,
casa com nome,
porta que fecha pra proteger
e abre pra viver.
A casa nasceu de uma morte,
mas o que ela fabrica
é gente aprendendo
a continuar.