Feijão, terra
e pombos

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Condado Goiana
terra do cavalo-marinho
onde o chão aprende nomes
antes da gente aprender a andar.

O feijão nasce ali
entre o sol e a insistência,
maracujá, goiaba, macaxeira
— tudo cresce porque alguém acordou cedo.

Terça, quinta e sexta
faça chuva, faça sol,
o feijão chega limpo,
debulhado na mão,
meia hora de conversa
e uma vida inteira de trabalho.

Cássio começou aos sete
vendendo coentro por ideia própria,
vergonha de pedir,
vontade de caminhar sozinho.
Independência também germina.

Zezé vem de uma casa cheia:
doze filhos,
cana de açúcar cercando o quintal,
salário curto,
roçadinho comprido.
Nada faltava —
tudo brotava.

Arraes era quase um santo
no retrato da parede,
porque foi ele
quem ensinou o chão
a chamar de seu
quem sempre pisou sem título.

O sítio ficou,
a cidade chamou,
a terra esperou.
Nada se perde:
o que não vira feijão
vira comida de bicho,
vira troca,
vira história.

Zezé trabalhou quarenta anos
em casa dos outros,
dormindo, cuidando, criando filhos alheios
como se fossem do mundo.
Estudou escondida,
passou em concurso,
tremeu diante de um telegrama
que dizia: você conseguiu.

Conseguiu casa,
conseguiu filhas formadas,
conseguiu atravessar o tempo
sem largar a mão da mãe
— noventa e tantos anos,
ainda plantando,
ainda lembrando dos matos.

A mãe sabia o nome das folhas,
dos lambedores,
do que cura dor
e do que cura saudade.
Hoje esquece às vezes,
mas a terra não esquece dela.

Enquanto isso,
os pombos de Olinda
bicando os sacos da feira
— gordinhos, pena brilhando,
namorando no meio do barulho,
bem diferentes dos pombos cansados
do centro de São Paulo.

Talvez seja isso:
onde a terra ainda conversa com a gente,
até os pombos
vivem melhor.

E o feijão,
ah, o feijão
segue indo e voltando,
como quem sabe
que a vida é esse ir e vir
de plantar, colher
e continuar.