Canta
Passarinho

[atlasvoice]

Ele veio de Surubim
com o sol batendo na testa
e a viola aprendendo o caminho da mão
antes da mão saber o caminho do mundo.

Cantou as praias
uma por uma,
como quem costura o litoral
com linha de voz:
Santos, Peruíbe, balsas, travessias,
ilhas que cabem na memória
e estradas que ele conhece
só de ouvir o nome.

Diz que poeta não decora:
poeta respira
e o verso sai andando.
Há o que escreve
e há o que canta.
Ele canta.

Aprendeu com o tio,
com os sítios,
com o pé de parede,
com o improviso que chega
sem pedir licença.
A viola nunca foi trabalho ruim,
tempo ruim é só quando o corpo deita
e não levanta.

Ele canta em rádio,
em festa,
em canto nenhum.
Canta pro turista,
pro passarinho,
pra quem ainda sabe escutar.

Carrega no bolso
uma desconfiança antiga do futuro.
Pergunta aos jovens
como se pergunta a um espelho quebrado:
— Me explique.

Não acredita em riqueza parada,
em terra que não se pisa,
em carro que vira caixão.
Acredita no agora,
no motor velho que pega estrada,
na cachoeira de fim de semana,
no mundo que precisa ser visto
antes de acabar.

Nunca prendeu passarinho.
Soltou todos.
Soltou até os que não eram seus.
Liberdade, pra ele,
é um bicho que não cabe em gaiola
nem em promessa.

Se ganhasse na mega-sena
não comprava palácio:
fazia casa com rodas,
blindada contra a miséria do medo,
e ia embora pelo mato,
rindo do tiro que não alcança
quem escolheu viver.

Ele canta porque viver é curto,
porque o verso nasce andando,
porque o mundo não foi feito
pra ficar parado.