Na beira do Mercado de São José
onde o dia passa rangendo metal,
Fábio afia o tempo.
Vinte anos no mesmo ponto —
um chão alugado,
uma frente emprestada,
uma lateral que conhece
o peso das manhãs
e o barulho das tardes.
O pai passou a mão no ofício
como quem passa um segredo:
não é só a faca,
é a escuta.
Não é só o corte,
é o cuidado.
O pai se foi,
mas deixou o giro da pedra
rodando sozinha na memória.
E Fábio ficou.
Mais velho,
mais preciso,
mais atento ao risco
de deixar o fio perder.
Alicates de unha chegam cansados,
máquinas de cabelo pedem socorro,
objetos pequenos
que sustentam grandes gestos:
o corte limpo,
a unha feita,
a dignidade diária.
Na família, só ele.
Por muito tempo, só ele.
Agora, não.
Agora as mãos se multiplicam.
Os filhos observam,
aprendem o ponto exato
entre força e delicadeza.
Aprendem que afiar
não é ferir,
é preparar.
O som da lâmina contra a pedra
vira herança viva.
Não escrita,
não assinada,
mas passada adiante
no ritmo do braço,
no olho que mede,
na paciência.
Ao lado do mercado,
onde tudo se vende e se refaz,
o ofício segue:
um fio,
outro fio,
outra geração.