Ele veio de Salvador
num ano que ainda cabia em dois bolsos,
2016 atravessado no peito.
Chegou achando que era passagem,
mas Olinda fez amarração:
cidade torta, salgada,
dessas que a gente não larga
nem quando diz que vai.
De dia,
o barco vira ponte.
Da praia do quartel
até a Ilha da Amizade —
Dubaizinho,
nome grande pra travessia curta.
Cinco, seis idas e voltas
no dia mais fraco.
No dia forte,
é gente demais
pra pouca água.
Do lado da praia,
ele conhece todo mundo.
Ou todo mundo conhece ele.
É quase a mesma coisa.
Antes,
lavava carro no estacionamento,
depois puxou balcão de bar,
sempre ali,
no mesmo quadrado de areia
que já sabe o formato do seu pé.
Com Vandir,
dominó aberto,
pedra batendo em pedra,
o tempo passando em silêncio.
Ele atravessa quando dá,
nas brechas de Seu Damião,
porque ninguém é dono do mar,
só hóspede antigo.
“Não tem bar sem gente chegando”,
ele diz,
como quem fala do vento
ou da maré.
Aqui, Olinda parece esquecida,
diz ele,
comparando com Salvador
que veste roupa nova todo ano.
Aqui,
o abandono chega primeiro
que o investimento.
O banheiro pintado de promessa,
o espelho lançado pra foto,
a obra pela metade
— política também é maré baixa.
Agora tem mais polícia,
a praia tá melhor,
mas menor de idade
corre mais que lei.
Ele lembra do alemão,
do cruzeiro,
da facada que não volta.
Não gosta de pescar,
mas leva,
ajuda,
segura a ponta da rede.
Aqui tem espada, sardinha,
pampo grande,
branco e preto,
lagostinha escondida.
Espada dá trabalho:
briga com o mundo inteiro,
corre pro lado errado
e não pede desculpa.
Tem tempo de peixe
e tempo de deixar o peixe em paz.
No tempo errado,
o mar vira cadeia.
Quando precisa,
pega ônibus,
treze horas até Salvador,
treze horas pensando se volta
—
volta.
No Carnaval,
fica em Olinda.
Diz que sabe qual é o melhor
e guarda o segredo
como quem guarda rota de fuga.
Já seguiu dezesseis trios
com quinze anos,
lá em Salvador.
Roubo pequeno não vinga,
porque lá
o medo anda armado
e bala não conversa.
Ele atravessa pessoas,
histórias,
silêncios.
Não pesca,
mas sabe o peso do peixe.
É Baiano do Barco:
meio água,
meio cidade,
indo e voltando
como quem já entendeu
que ficar
também é uma forma
de travessia.