Banquinha de
fogo manso

[atlasvoice]

Cheguei pela Sé
menina ainda,
treze anos e um tabuleiro de aprender.
A tapioca não sabia meu nome,
foi uma senhora quem me ensinou
o ponto,
o gesto,
o silêncio do fogo.

Era banco de madeira,
mesa de madeira,
tempo de madeira
— tudo mais pesado,
tudo mais durável.

Ajudei,
aprendi,
fiquei.

Depois a banquinha foi minha
como quem ganha um lugar no mundo
com farinha,
goma
e coragem.

Casei ali perto,
tive dois filhos
entre uma tapioca e outra.
O espaço veio do tio,
a luta veio do marido
que não queria que eu viesse
— talvez porque aqui
ele aprontava.
Mas eu vim.
E fiquei.
Quarenta anos.

Mudaram a praça,
mudaram a gente,
levaram, trouxeram,
empurraram pra lá,
puxaram pra cá.
Freira não gostou de palavrão,
prefeitura gostou de troca,
e a tapioca foi andando
com suas pernas de banco.

Criei filhos aqui,
netos também.
Cinco netos
correndo entre cheiro de coco
e conversa fiada.

Uma filha atravessou o oceano,
Portugal agora mora no meu celular.
O outro foi depois.
Eu fico,
faço chamada de vídeo,
dou conselho,
rezo baixinho.

Já ensinei tapioca em São Paulo,
já filmaram minha casa,
já disseram:
“é igual, mas não é”.
Porque o tempero não mora no ingrediente,
mora na mão.

Hoje tem acarajé.
Massa pura.
Feijão, cebola e alho.
Sem farinha pra enganar o peso.
É melhor acabar que sobrar,
todo dia novo,
todo dia fresco.

No carnaval
eu viro outra coisa:
chego primeiro,
saio por último,
perco seis quilos
e ganho o mundo.
A praça vira mar,
e eu fico no meio
segurando o barco.

Tem história que pesa,
queda na escadaria,
sirene na noite,
silêncio depois.

Tem processo,
ex-marido,
placa serrada,
pobreza espiritual
— dessas eu passo por cima
com a mesma firmeza
que viro tapioca.

Hoje sou solteira
e em paz.
Já casei duas vezes,
chega.
Deixa eu casar com o dia.

Aqui estou,
Albanita,
antes de muitos,
depois de ninguém.
Quem calça o sapato sabe
onde aperta.
E eu sigo,
com fogo manso,
alimentando quem chega
e ficando.