Crônicas de
quem fica

[atlasvoice]

Olinda não é cidade,
é uma pessoa difícil
que a gente ama
mesmo quando não responde mensagem.

Sou de Maranguape 1,
saí de lá há vinte anos
com vontade de festa no bolso
e cansaço nos sapatos.
Sempre gostei de barulho:
show, evento, confusão boa.
Trabalhei em mil coisas
até cair, de paraquedas,
na produção
— e depois no bar,
onde virei gerente
sem pedir licença.

Tive um bar em Maranguape,
eu e meu ex-marido,
sinuca, café, coca-cola,
um grafite de Erasto na parede:
um caboclo de lança
olhando tudo.

Erasto ia lá cedo,
não bebia mais,
tinha largado a bebida
pra sobreviver a si mesmo.
Parou de beber
pra não botar o mundo pra fora de casa.
Fumava, ria,
me chamava pra sexta-feira:
vinil novo, radiola ligada,
eu dançando,
ele rindo sentado.
Às onze, fim da festa:
sono é sagrado.

As erastetes iam paquerar Fabinho,
eu observava de longe:
nunca me encantei
pelas joias dos bastidores.
Eu já conhecia o brilho falso.

Andei Olinda grávida,
andei Olinda cansada,
andei Olinda chorando morto errado.
Já fui a velório
sem saber quem estava no caixão.
Chorei num,
descobri que era outro.
Em Olinda até a morte
é coletiva e confusa.

Já desci ladeira
em carro sem freio
depois de enterro.
Já vi pombos mais gordos que gente,
já vi artista esquecido no acostamento,
já vi um boneco viajar sem cabeça
e a cabeça virar personagem.

Produzi carnaval com buchão
e quarenta e dois homens atrás.
Monbojó, Siba, Eddie, Berlinda,
Henrique Dias,
o caos organizado
da cultura popular.

Já esqueci Erasto
numa estrada
— ou ele esqueceu a gente.
Virou Macaulay Vasconcelos,
Esqueceram de Mim, versão Olinda.

Trabalhei de tudo:
garçonete, vendedora, produtora,
camarão, óculos, café, roupa.
Fui, voltei, rodei,
casei, descasei, pari, criei.

Hoje tô aqui,
num bar bonito,
resolvendo tudo,
apagando incêndio
sem extintor nem salário.
Todo dia um pau,
todo dia um afeto.

Minha relação com Olinda
é essa:
amor que dá raiva,
ódio que não vai embora.

Porque Olinda prende.
Olinda ri da gente.
Olinda abraça e empurra.

E mesmo assim,
no fim do dia,
quando a rua enche,
o som começa
e alguém pede mais uma,
eu fico.