O corpo sabe
o caminho do passo
antes da cabeça.
Tem cachaça na roda
não pra cair,
mas pra brindar
o que ainda está de pé.
As mãos
— essas mãos —
já foram madeira,
cimento,
grade,
porta.
Marceneiro de dia,
pedreiro da própria casa,
caboclo de lança quando o mundo chama.
Não veio do pai.
Veio do tio.
Veio do amor.
Veio desse homem
que girava no terreiro
e ensinava sem ensinar,
só brincando.
(e aqui a voz falha)
Ele nunca saiu junto.
Era pequeno.
A mãe não deixava.
A mãe dizia:
“meu filho é caboclo de lança”
sem saber
que dizia profecia.
Hoje ele veste
o lugar do tio.
Hoje ele gira
no espaço que ficou vazio.
(chora)
Arruma um trocado,
mas o que carrega
não é dinheiro:
é memória.
Pra ninguém dizer
que o tio morreu
duas vezes.
Tem uma filha.
Tem uma casa.
Rua seis, casa cinco.
Sozinho.
Fez tudo com essas mãos:
porta,
grade,
parede,
teto.
Fez casa
como quem faz abrigo
pra si mesmo.
Desculpa.
(chora outra vez)
Ele não tá na sarjeta.
Não.
Nunca esteve.
Foi deixado.
A mulher levou a filha
quando descobriu
o brilho da lança.
Era da assembleia.
Disse:
“ou isso ou eu”.
Ele ficou com a cultura.
Dez anos passam
como passam os carnavais:
rápido
e deixando resto.
Ela casou de novo.
Ele diz que tá feliz.
(palhaço triste
rindo sozinho
no meio da festa)
Paga pensão.
Cata lixo se for preciso.
170 reais
todo mês.
A casa é dela,
ele diz.
Ela não quer.
O dinheiro vai,
o abraço não volta.
Ele só queria
um abraço forte,
um cheiro conhecido,
um descanso no peito.
Mas dança.
Canta.
Brinca.
Porque tudo que ele é
passa pelo corpo.
E enquanto ele gira,
o tio vive.
E enquanto ele canta,
ninguém morreu.