Palha que
vira peixe

[atlasvoice]

Aos quinze
o mundo ficou sem teto.

A mãe bebia a própria tristeza,
o peito doente,
o silêncio crescendo dentro de casa.

O pai
foi só passagem.

Quando a morte chegou,
veio junto com o despejo,
a chave sem porta,
o nome sem sobrenome.

A praça do Carmo
virou endereço.

E a rua —
que não pergunta idade —
ensinou cedo
a segurar o dia
com as duas mãos.

Não roubou nada de ninguém.
Nunca.
Catou carinho.
Catou gesto.
Catou atenção
como quem cata moeda rara.

Aprendeu arte
pra não ficar parado.
Porque quem para
afunda.

Na Sé,
uma tapioqueira ensinou
rosas.

Centenas delas.
Cento e cinquenta e oito jeitos
de dobrar o mesmo fio
até virar flor.

E virou
“o da palha”.

Conhecido pelo nome
que a rua dá
quando respeita.

Teve concurso.
Teve riso.
Teve cinquenta,
cem,
cento e cinquenta reais —
mais brincadeira que prêmio,
mais afeto que dinheiro.

Casou.
Virou pai.

Criança não pede pra nascer,
mas pede leite.

E quando o leite era caro,
pediu ajuda.
Em farmácia,
em esquina,
em oração sem igreja.

Hoje o filho come
arroz amassadinho,
papinha,
vida.

Ontem,
na Sé,
quatro crianças.

Só três palhas.

Três peixes
pra quatro vontades.

O choro sobrou.

E ele desceu a ladeira da Misericórdia
como quem desce um rio,
catou palha no mangue,
dobrou o tempo,
fez peixe novo.

O choro parou
quando o peixe chegou.

É assim que ele vive:
transformando quase nada
em alegria suficiente
pra caber na mão de uma criança.

Porque pra quem cresceu sem família,
um olhar que fica
vale mais que dinheiro.

E a palha —
essa coisa simples —
quando dobrada com cuidado,
vira flor,
vira peixe,
vira casa
por alguns minutos.