Tarimbada
em Olinda

[atlasvoice]

Nasceu em Bultrins,
no tempo largo do Tricentenário,
quando a cidade ainda aprendia
a dizer o próprio nome.

Hoje mora em Peixinhos,
onde o dia começa cedo
e a vida nunca pede licença.

Perto do Pintor Manuel Bandeira,
ali onde a antiga Caixa Econômica
guardava promessas em gavetas de ferro,
ela aprendeu a seguir andando.

Primeiro foi restaurante em BV:
mãos de ajudante,
fogo de cozinheira,
panela como sustento 
Depois, livros abertos à noite,
técnico de enfermagem,
cuidar como quem respira.

Aos quinze, a escola e a barriga crescendo.
A filha pequena no colo,
os cadernos no outro braço.
A diretora disse:
pode vir, não deixa de estudar não.
E ela veio.
Pegou um, pegou outro,
e terminou.
Três filhos antes dos vinte e quatro,
como quem aprende cedo
a multiplicar o amor.

O primeiro marido partiu cedo,
leptospirose,
onze anos depois da primeira filha.
A morte chegou sem aviso,
mas não levou a coragem.

Deixava os meninos sozinhos
e ia fazer faxina.
Hoje só entra nas casas
onde criou vínculo,
onde o tempo virou confiança.

A filha mais velha cuida de peles
e abriu o próprio salão O filho produz sons,
batidas que atravessam paredes A mais nova frita nuggets
numa praça de alimentação,
aprendendo o mundo no intervalo do expediente.

O esposo de agora é caminhoneiro Antes, estrada demais.
Hoje, vai da capital ao interior,
transporta pallets,
traz madeira,
faz móveis nascerem em Recife
e espalha casas pelo estado.

No Carnaval, ela trabalha.
Sempre no miolo de tudo,
dentro das casas,
fazendo o serviço
enquanto vê a festa passar pela janela.

Casa da Rabeca foi sala de aula.
Salu ainda vivo,
ela sempre lá.
Chico Science morreu perto de casa,
ela foi ver.
Começou a comer caranguejo por causa dele — antes, não gostava.

“Tarimbada em Olinda”,
mistura fé e rua sem conflito.
A procissão passa,
a orquestra espera,
todo mundo se cumprimenta,
e depois o frevo volta,
capaz até de seguir tocando
junto com a santa 

Hoje ela cuida de muitas crianças,
filhos de quem ela limpou,
limpa
e seguirá limpando casas.
Cuida como quem sabe:
religião e profano
não brigam.
A vida cabe inteira
no mesmo compasso.

mais lúdico

nasceu em Bultrins
quando a cidade ainda aprendia
a contar seus próprios anos.
tricentenária,
aprendeu cedo
que o tempo também mora na pele.

hoje mora em Peixinhos,
onde o chão conversa com o mar
e as ruas sabem o nome de quem passa.
perto do Pintor Manuel Bandeira,
ali onde a antiga Caixa Econômica
guardava mais sonhos do que dinheiro.

teve mãos de cozinha:
primeiro ajudante,
depois cozinheira.
temperava a vida
com o que tinha.
agora estuda enfermagem,
aprende a cuidar
como quem já sabe.

engravidou na escola,
quinze anos
e um caderno dividido
entre letras e mamadeiras.
a filha pequena no colo,
os professores abrindo espaço,
a diretora dizendo:
— pode vir, não deixa de estudar não.
ela veio.
pegou um, pegou outro,
e terminou os estudos assim.
três filhos antes dos vinte e quatro,
três luas orbitando seu corpo.

o primeiro amor foi levado pela água suja,
leptospirose,
onze anos depois da primeira filha.
a vida às vezes passa
sem pedir licença.

deixava os meninos em casa
e ia fazer faxina.
limpava casas
enquanto construía a própria.
hoje só volta
onde criou laço,
onde seu nome mora.

a filha mais velha
faz beleza com as mãos,
tem salão,
espelho próprio.
o filho faz música,
mistura batida e futuro.
a caçula frita nuggets no shopping,
sonha entre um pedido e outro.

o marido atual é caminhoneiro,
homem de estrada.
antes rodava o mundo,
agora vai e volta
da capital pro interior.
leva pallets,
traz madeira,
faz móveis nascerem em Recife
e espalha pelo estado
como quem semeia.

no Carnaval,
ela trabalha.
sempre no miolo,
no olho do furacão.
dentro das casas,
fazendo o serviço,
vendo o frevo passar pela janela
como um rio colorido.

a Casa da Rabeca foi escola.
Salu vivo,
ela viva ali.
Chico Science morreu perto de casa,
ela foi ver,
e desde então
come caranguejo.
antes não gostava,
agora gosta
porque memória também alimenta.

tarimbada em Olinda,
mistura fé e folia
sem pedir desculpa.
reza e dança.
— uma coisa não tem nada a ver com a outra.
a procissão passa,
a orquestra espera,
todo mundo se cumprimenta
e depois a música volta,
às vezes tocando junto com a santa.

hoje ela cuida
dos filhos dos outros,
das crianças das casas
onde limpou o chão
e plantou confiança.
cuida porque sabe:
gente também se cria
no colo do mundo.