Virgula de Parto,
Janela de Hotel

[atlasvoice]

Estudado em turismo
a vida me botou na recepção
antes de me dar mapa.

Hotel que era motel,
avenida de nomes trocados,
sino tocando de madrugada
como se fosse desejo
batendo na porta errada.

“Só quer transar”,
disseram.
Eu disse: aqui não.
A rua do Sossego
nunca dormiu com esse nome.

Trabalhar à noite
era ficar acordado no corpo errado.
Eu virava madrugada
e amanhecia na faculdade
com o estômago enjoado
de gente,
de sistema,
de janela que fecha na cara do insulto.

“Nordestino sonso”,
disseram.
Sorri.
Às vezes o sorriso
é só o último abrigo
antes da demissão.

Depois fui balcão de informação turística,
seta humana apontando caminhos
que eu mesmo ainda não sabia.
Depois hostel,
Piratas da Praia,
amores que acabam
mas continuam trabalhando no mesmo turno.
Eu saí.

Virei Uber por um mês
— e por um parto.

Cinco da manhã,
uma urgência.
No banco de trás,
o mundo escorregou
antes da lombada.

Nasceu ali,
entre o susto e o waze perdido,
um menino decidido
a não esperar plantão nenhum.
Eu aprendi que a vida
não pede autorização
pra acontecer.

Nove reais a corrida.
Cento e vinte a limpeza.
Mas tem coisas
que não entram na planilha.

Depois eu fiz mapa astral,
porque cada nascimento
merece ao menos
uma tentativa de sentido.

Voltei pra bicicleta,
pra Boa Vista,
pra uma casa vazia
que parecia dizer:
fica.

Não abriu floricultura.
Abriu insistência.
Hostel sem cama,
sem ar,
mas com coragem parcelada
em dois cartões de crédito.

“Vende”,
eu dizia.
O quarto ainda não existia,
mas o desejo sim.

Carnaval chegou primeiro
que os colchões.
A pandemia chegou depois
que todas as dívidas.

Zero hóspedes.
Mil boletos.
Nenhuma ajuda.

Aprendi a fazer pão.
Porque quando tudo fecha,
a gente aprende a fermentar.

Hoje eu sigo
entre quartos,
memórias
e madrugadas que prefiro não repetir.

Hotelaria não é sobre camas.
É sobre atravessar gente.

E às vezes,
sem querer,
ajudar alguém
a nascer.